Clube Náutico Bodes do Mar - Guaratuba

Clube Náutico Bodes do Mar - Guaratuba

Esta explicação é bastante interessante e foi produzido pela Dra. Claudia Barth, cirurgiã plástica, é Capitã Am. de família com tradição marinheira, é associada ao Veleiros do Sul, Porto Alegre.
Enjôo não tem cura


O enjôo marítimo, também conhecido como cinetose, doença do movimento ou náusea do mar é uma situação muito freqüente a bordo e acomete até os mais experientes navegadores. É um fenômeno fisiológico, uma reação natural do organismo às variações rápidas e constantes de posição. Caracteriza-se por sintomas como sudorese, palidez, salivação, náuseas, tonturas, cefaléia (dor de cabeça), fadiga e vômitos. Até o momento, não existe tratamento definitivo para este problema.

Causas do Enjôo Marítimo


As variações de posição do corpo, quando navegando, estimulam receptores sensoriais localizados no labirinto vestibular (localiza-se no ouvido interno e dá a noção de movimento linear e angular e de orientação no espaço), nas retinas dos olhos e nos músculos e articulações (sensibilidade proprioceptiva). Estes dados sensoriais misturados são enviados ao cerebelo, tronco cerebral e cérebro, que tentam coordená-los. Estas estruturas procuram fazer os ajustamentos posturais e provocam a sensação de vertigem. A conexão destes impulsos nervosos com o nervo vago é a responsável pelos sintomas característicos do enjôo marítimo: palidez, sudorese, salivação, náuseas e vômitos.
Descobriu-se que o medo ou a ansiedade podem baixar o limiar para o desenvolvimento destes sintomas. Este limiar também pode aumentar, como, por exemplo, nas situações em que há poucos tripulantes a bordo. Nestes casos, não há tempo para enjoar, mesmo com mar agitado, o que reforça o componente psicológico. Entretanto, alguns indivíduos parecem ser predispostos ao enjôo desde a infância.

Classificação


Podemos classificar os indivíduos que sofrem de enjôo marítimo de acordo com o limiar de sensibilidade: -Indivíduos altamente suscetíveis ao problema: são os "mareados". O mareado pede para morrer, fica jogado no chão e, se alguém pisar em cima, ele nem reclama.
Certa vez, numa travessia de Rio Grande a Florianópolis, um tripulante do veleiro Orion II ficou mareado por dois dias consecutivos, sem alívio dos sintomas por um só momento. O infeliz não aguentava mais aquela tortura, pedia para morrer, queria se jogar no mar. O Comandante Egon, vendo a gravidade da situação, não teve dúvidas. Mandou a tripulação amarrá-lo no mastro da mezena, já que ele era grande e forte. Ficou ali por um bom tempo, até se acalmar.
-Indivíduos que apresentam sintomas em condições especiais: são os "nauseados" ou "enjoados". O nauseado continua trabalhando e em pouco tempo está bom.
-Indiví­duos que apresentam sintomas somente em situações extremas: são os "resistentes".
O Comandante Ferrugem conta uma situação tragicômica em que um tripulante mareado levou um balde para o beliche, para o caso de alguma emergência. Não deu outra, teve de usar o balde. O detalhe é que esse balde não tinha fundo. Era o balde de passar balão, utilizado como se fosse um cano, para colocar os atilhos que prendem o balão.

Como Prevenir o Enjôo:


A prevenção deve ser feita na véspera do passeio:
-Tentar dormir as horas de sono de que o organismo necessita.
-Não fazer uso de bebidas alcoólicas.
-Evitar gorduras, cafeína e excessos alimentares.
-Nunca embarcar de estômago vazio.
O enjôo deve ser prevenido antes do aparecimento dos primeiros sintomas. Quando eles aparecem, pouco pode ser feito. Estes podem ser atenuados com as seguintes "dicas":
-Evitar o interior do barco (cabine). Permanecer no convés, em local arejado.
-Não deixar a cabeça acompanhar o movimento do barco. Tentar mantê-la fixa, olhando o horizonte ou outro ponto de referência que esteja fixo (objeto na costa, outro barco ao longe, etc).
-Manter-se preferencialmente na popa do barco e longe do cheiro de combustível. Numa embarcação maior, procurar uma área de menor movimento, geralmente no meio do barco e permanecer no nível mais baixo possível.
-Evitar esforçar-se exageradamente quando estiver navegando. Procurar ocupar-se com atividades leves e conversas de bordo.
-Evitar ler as cartas náuticas ou olhar o GPS.
-Evitar o fumo e manter-se longe de quem está fumando.
-Respirar fundo e lentamente.
-Evitar sentir frio.
-Comer bolachas de água e sal e beber água ou coca-cola.
-Aplicar compressas geladas sobre os olhos e no pescoço.

Medicação Contra Enjôo


A principal ação das drogas usadas na profilaxia e tratamento do enjôo marítimo é, basicamente, a sedação. Elas diminuem a atividade do sistema nervoso central (SNC), agindo diretamente sobre ele, ou diminuindo os impulsos nervosos que chegam até ele.
As drogas de escolha são os anti-histamínicos, sendo o Dramin o mais usado, na forma de comprimidos ou injetável. Normalmente é receitado meia a uma hora antes de entrar no barco e repetido uma hora depois do iní­cio da viagem. Seus efeitos colaterais são sonolência, boca seca, e, em alguns casos, alterações visuais (visão turva, diplopia), dentre outros. Seus efeitos variam de indivíduo para indivíduo e duram de seis a oito horas. A sonolência em certos casos pode ser benéfica. Em outros, pode provocar acidentes, pois prejudica a atividade do paciente, tornando sua mente embotada e diminuindo a atividade reflexa. Atualmente, está sendo comercializada livremente na Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália a meclizina (Meclin), um anti-histamínico que promove menor grau de sonolência porque atua mais especificamente no labirinto, diminuindo sua irritabilidade. Seu efeito dura vinte e quatro horas e tem sido a droga de escolha das grandes companhias de cruzeiros marí­timos internacionais.
Outros medicamentos usados contra o enjôo são os anticolinérgicos (escopolamina), a metoclopramida (Plasil) e a ondansetrona (Setronax, Nausedron, Zofran). O uso da escopolamina é pouco frequente atualmente, já a metoclopramida é bastante utilizada. Além de agir diretamente no SNC, ela relaxa o piloro, acelerando o esvaziamento gástrico. Sua dose é de 10 mg de seis em seis horas. A ondansetrona diminui a atividade vagal e também atua a nível de SNC, sendo mais usada no controle dos enjôos provocados pela quimioterapia e pós-operatório. A dose usual é de 4 a 8mg de oito em oito horas. A metoclopramida e a ondansetrona também são usadas na forma injetável.
IMPORTANTE: Todo medicamento possui efeitos colaterais. As informações contidas nas bulas dos medicamentos devem ser lidas com atenção antes da sua administração. Consulte seu médico sobre os medicamentos aqui citados.

Curiosidade:


-Tapar um dos olhos pode ser útil. Antigamente, os piratas usavam este recurso, não por falta de um dos olhos, mas sim para evitar o enjôo.
Conclusão:
Andar de barco na maioria das vezes é um grande prazer, mas não para quem enjoa. Apesar de todos os progressos da ciência, ainda não foi encontrado um tratamento verdadeiramente eficaz contra este mal. Prevenir é ainda o melhor remédio. Para quem é altamente suscetível ao problema, aqui vai o conselho do Mestre Geraldo Knippling: "Existe um remédio infalível e 100% eficaz: basta sentar-se embaixo de uma árvore".


Fonte Mar Azul